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Teatro Municipal de São Paulo
Estilo Eclético
(1903 - 1911) São Paulo, SP


udo começou com uma promessa. Quem construísse um teatro em São Paulo estaria livre de impostos durante três anos.
A idéia do vereador Carlos Garcia virou projeto na Câmara Municipal em maio de 1895. Ninguém se interessou. Um ano depois, outra promessa. Dessa vez, o projeto dos vereadores Gomes Cardin e José Roberto transformava a isenção em vinte e três anos. Ninguém se interessou.

A terceira promessa, em 1898, transformavam os 23 anos em 50. Houve, então, quem concordasse com os vereadores: São Paulo precisava de um teatro imagem e semelhança da cidade. Afinal, um incêndio destruíra, dois anos antes, em 1896, o Teatro São José, no Largo da Cadeia ou do Teatro - hoje, Praça João Mendes-, o único capaz de oferecer algum conforto. Os outros - Politeama, Minerva, Ginásio Paulistano e Teatro Provisório Paulistano - funcionavam porque existiam simplesmente.

Os empreiteiros Felipe Santoro, Felício dos Santos e o Conde de Souza Dantas estavam entre os primeiros cidadãos que acreditaram nos cinquenta anos de isenção fiscal. O teatro seria na Praça da República em frente a Escola Normal, hoje Secretaria de Educação do Estado. Sua crença durou pouco, substituída pela de José Mariano Correia Camargo Aranha e Arthur M. Cortines Laxe. O teatro seria entre as Ruas Timbiras, Ipiranga e São João, se eles tivessem conseguido capital.

O teatro de Giacomo Leone, mais um a sonhar com cinquenta anos de isenção, seria entre as Ruas Formosa, São João e Barão de Itapetininga, se ele não tivesse morrido logo depois, na Europa, onde fora em busca de dinheiro.

Em 1900, os 85.000 habitantes de São Paulo, ainda sem um teatro à imagem e semelhança da cidade culta e próspera, viram discussões de projetos sobre sua construção serem mudados da Câmara para o Senado.
O projeto do senador Frederico Abranches não prometia isenção de impostos, mas propunha a participação da sociedade, por meio de iniciativa privada, a construção de obras públicas.

Se a lei decorrente do projeto do senador Abranches não tivesse sido engavetado por falta de recursos, possivelmente algum teatro teria surgido na confluência de famosas e esquinas da cidade.
O vereador Gomes Cardin propôs, persistente, a união entre a Prefeitura e o Estado. E se este cedesse àquela um terreno desapropriado um ano antes, que entre as suas Conselheiro Crispiniano, Barão de Itapetininga e Formosa?

O Estado cedeu. Em abril de 1903, um crédito de 2,3 mil contos de réis, autorizado por lei, avisava aos paulistanos que o sonho ameaçava virar realidade.
O terreno desapropriado ficava no Morro do Chá; a atual Praça Ramos de Azevedo ainda não existia; o Viaduto do Chá ia fazer 11 anos; e no Vale do Anhangabaú, fértil e amplo, plantavam se legumes, frutas e verduras.

Com as obras iniciadas no dia 5 de junho de 1903, o prédio mais alto da cidade com 3.600 metros quadrados de área construída, ficou pronto oito anos e três meses mais tarde, depois de gastar 50 toneladas de ferro fundido,700 toneladas de ferro laminado e perfilado 4,5 milhões de tijolos, além de cristais da Boêmia, mosaicos de Veneza, mobiliário da Alemanha e tapetes de Milão.
O custo? Duas vezes o imaginado: 4,5 mil contos de réis. Nomeada pelo prefeito Raimundo Duprat, a Comissão de Inauguração - Ramos de Azevedo, Numa de Oliveira, Alfredo Pujol e Manoel Pedro Villaboim - passou a cuidar da elaboração do programa de estréia.

O Teatro Municipal de São Paulo, terminado no dia 30 de junho de 1911, seria inaugurado no mês seguinte. No entanto, a colheita da café, durando de maio a agosto, tornaria impossível a presença das famílias dos produtores. Assim, marcou-se a inauguração para o dia 11 de setembro, com o mais célebre barítono da época, Titta Ruffo, interpretando "Hamlet", ópera de Ambroise Thomas.

Não chegando a tempo, os cenários adiaram a inauguração para a noite 12 de setembro.
Os 1816 lugares pareceram poucos para os cavalheiros de casaca e as damas de luvas, leques e chapéus, todos encantados com a magnificência do Teatro, finalmente à imagem e semelhança da cidade, culta e próspera.

Lá fora, nas proximidades, o movimento era tão intenso que, em uniforme de gala, membros da cavalaria e da infantaria precisaram de auxílio de um grupo de ciclistas da Guarda Cívica orientando, na saída, a chamada dos veículos.
Os veículos só passaram a ser chamados na madrugada do dia 13, sem que o espetáculo ainda estivesse inteiramente terminado.
Tantos foram os discursos e homenagens que o último ato terminou à meia-noite e 45 minutos. Faltava o epílogo de "Hamlet".

Felizes e cansados, os espectadores queriam, de volta às casas, comentar o feito e o acontecido, lembrar o visto e o imaginado, inventar o sonhado. Assim, naquela noite, o epílogo de "Hamlet" continuou faltando.
Em forma de leque, o programa da estréia estava povoado de anúncios. Farmácias, barbearias, luvarias, mercearias. Cigarros, rebuçados, toucas, chapéus, conhaque, cerveja, remédios para caspas e suores.
Em pouco tempo e durante algumas décadas, o Teatro Municipal simbolizou a cidade. Em dias de espetáculos, bondes especiais, forrados com tecidos brancos, transportavam os requintados frequentadores e protegiam suas roupas impecavelmente talhadas e engomadas.

O mês de agosto, trazendo as temporadas líricas era, cuidadosamente programado.
Assim, em 1914, o público paulistano pôde assistir, apenas dez meses após a estréia no Scala de Milão, a ópera "Paristina", de Pietro Mascagni.

Bidu Sayão, Tito Schippa, Enrico Caruso, Renata Tebaldi e Maria Callas foram alguns dos nomes que interpretaram não menos que Wagner, Verdi, Rossini, Bizet, Massenet, Carlos Gomes.

Os espetáculos de dança trouxeram o American Ballet, o Ballet de Stuttgart, o Bolshoi, o Berioska, o Stagium, o Ballet des Champs-Elysées, com figurinos de Jean Cocteau, Cristian Dior e Picasso.
Os dramas e comédias marcaram o encontro da platéia com Cacilda Becker, Paulo Autran, Tônia Carrero, Marcel Marceau, Jean-Louis Barrault, e tantos outros.

Em 1922, de 11 a 18 de fevereiro, os 400 mil habitantes São Paulo souberam de uma revolução cultural pisando o palco do Teatro Municipal.

A semana de arte moderna, ou Semana de 22, reunindo Oswald de Andrade, Mário de Andrade, Menotti del Picchia, Anita Malfatti, Tarsila do Amaral, Villa-Lobos, Guiomar Novaes e tantos outros, foi tão avançadamente polêmica, que ainda hoje, ao ser evocada, costuma provocar controvérsias quase tão intensas como as vividas entre as paredes do Teatro.

Concertos, exposições, aplausos, vaias, urros, o Teatro Municipal nunca presenciara antes - nem viria a presenciar depois - tamanha liberdade de ação e de expressão.

No entanto, por pertencer ao Município e sofrer pressões políticas, o Teatro Municipal presenciou inúmeras cenas fora do script. Festas de formatura, convenções partidárias, bailes de carnaval, banquetes oficiais e o passar do tempo deixaram o teatro em estado precário. Os anos 50 começando.

Artistas internacionais decepcionados cobravam cachês cada vez mais altos. Em 1954, o Ballet do IV Centenário, um dos orgulhos da cidade, foi obrigado, no dia 25 de janeiro, a se apresentar no estádio do Pacaembu. São Paulo fazia 400 anos, mas seu Teatro, com as portas fechadas por uma reforma iniciada em 1952, não pôde comemorar.

Em 1988, o Teatro comemorou o sucesso de sua maior reforma. Dois anos antes, engenheiro civis, eletrônicos, acústicos, mestres-de-obras, arquitetos, historiadores, carpinteiros, encanadores, marmoristas, serralheiros, vidraceiros, impermeabilizadores, pedreiros, estofadores, todos se empenharam em devolver à cidade um seus maiores patrimônios.

Se não se podia reformar de uma só vez todos os edifícios públicos necessitados de reforma, que se partisse de um dos mais importantes, um dos mais caros símbolos da cidade, ele mesmo uma verdadeira cidade, mistura de arte e concreto.

A sociedade cooperou, como queria o senador Abranches no início do século. Um grupo, Amigos do Teatro, formou-se entre empresários e personalidades diversas, e, juntando-se ao poder público, avaliou, discutiu, analisou, protegeu e defendeu o patrimônio da comunidade.
Uma a uma, cada dependência do Teatro foi recuperando a forma original. Cada peça, cada detalhe. O lustre central com sete mil peças de vidro e 220 lâmpadas, foi inteiramente desmontado e limpo, e refeitas algumas peças que não mais existiam.

Em 1991, portas e janelas abertas, luzes acesas, o Teatro Municipal, à imagem e semelhança do que a cidade ainda pode vir a ser, possuía motivos de sobra para comemorar seus oitenta anos.



































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