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mucamas já estavam habituadas. Nas tardes de sábado, deixavam a casa dos
senhores e, com latas e baldes vazios, buscavam as fontes. Em casa, aquecida
em fogões de lenha, a água tinha destino certo: o banho semanal dos sinhôs
e das sinhás. Natural que as mucamas se alvoroçassem na tarde de 27 de
janeiro de 1887, simples quinta-feira, quando todos os sinhôs e as sinhás
resolveram antecipar em dois dias a rotineira cerimônia dos sábados. A
simples quinta-feira, com a solenidade de um sábado, anunciava a realização
de um sonho nasceido em 1872, quando a cidade tinha "cento e setenta e
duas casas habitadas, dezenove desabitadas, uma Igreja Matriz, uma casa
de Câmara e Cadeia, quatro ruas longitudinais, seis transversais, três
largos, um cemitério católico, quatro pontes, oitocentos e noventa e dois
habitantes na área urbana e sete mil, setecentos e vinte e sete na rural".
Acalentado a quinze anos, o sonho acontecia: na cidade da Lapa, no Paraná,
num teatro com 212 lugares: 79 na platéia e 133 distribuídos entre os
camarotes. Nas ruas quentes e molhadas - a natureza, desconhecendo o motivo
de tanto entusiasmo, ou, quem sabe, festejando, havia brindado a cidade
com muita chuva na primeira parte do dia - , os baldes e as latas das
mucamas esbarravam nos bancos e nas cadeiras que os escravos, suando,
pés no chão, transportavam das moradias para o Teatro ainda sem mobília.
Na hora marcada, as ruas principais iluminadas por archotes e a sala de
espetáculos, por lampiões, o Teatro São João - nome em homenagem a João
Pereira Braga, fundador da cidade, antes Vila do Príncipe - que já havia
funcionado informalmente havia onze anos, abriu as cortinas, e a atriz
espanhola Pepa Ruiz interpretou a opereta "Os sinos de Corneville", de
Planquette, compositor francês.
Ainda hoje, passados mais cem anos, a lembrança do dia em que o trânsito
assustou os cavalos, fazendo-os disparar com as carruagens, continua parte
das histórias que os habitantes da Lapa costumam rememorar quando evocam
seus antepassados. Mais, talvez, que uma nebulosa visita do Imperador
D. Pedro II, que um jornalista da comitiva imperial assim registrou: "Houve
um baile esplêndido, de que nem vimos o fim. No meio da terceira valsa,
fomos polcando até Morretes e, de lá, num galope infernal até Curitiba".
Quanto a D. Pedro II, que diziam meticuloso, afirma no dia 2 de junho
de 1880, em seu diário: " Na Lapa também começou-se um theatro que felizmente
aproveitaram para pequena livraria pública que dá livros a quem os pede
para ler. Lembrei que utilizassem o theatro para salas de aulas".
O Teatro São João transformou-se em enfermaria de emergência na Revolução
Federalista, em cinema mudo no início do século XX, em cinema falado,
o primeiro da cidade. Além disso, sediou a Primeira Exposição Regional
de Agricultura e, durante vários anos, leilões de perus, leitões, galinhas
e objetos variados, em benefício da festa de São Benedito.
Quase em ruínas, em 1950 o prédio foi adapatado para abrigar a Rádio Legendária
da Paróquia da Lapa, que ocupou durante vinte e cinco anos. Tombado pelo
Patrimônio Histórico e Artístico do Paraná em 1969 e, mais tarde, pelo
Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), o Teatro
São João, único remanescente dos teatros construídos na Província do Paraná,
foi restaurado pelos arquitetos José La Pastina Filho e Cyro Correa de
Oliveira Lyra, sob a orientação do IPHAN, em convênio com a Prefeitura.
Entregue novamente ao público em 1976, como sala de espetáculos, cumpre
o papel que lhe reservaram Emydio Westphalen, Pedro Fortunato de Souza,
Magalhães Junior e João Domingos Garcia. Representantes da Sociedade Literária
Lapeana, eles compraram, por 500 mil réis, em 1873, um terreno que media
93 palmos de fundos...