
inda que não existam muitas informações sobre a origem da Casa da Ópera de Sabará, a população da cidade sempre soube que ela nasceu do entusiasmo e do esforço de alguns habitantes, sem nenhuma ajuda oficial.
Em plena decadência do Ciclo do Ouro, a Capitania vivendo um período de depressão econômica, a construção da Casa da Ópera talvez tenha o significado de uma lição de resistência da comunidade às circuntâncias adversas, tentando preservar a cultura e a arte surgidas entre aquelas montanhas de Minas.
O terreno escolhido pertencia ao alferes Francisco da Costa Soares, que, aliado a outros sócios, sentiu os esforços recompensados no dia 2 de junho de 1819. Duas peças, "Maria Teresa, a Imperatriz da Áustria" e "Zêlo d'Amor", inauguravam, na antiga Vila Real de Nossa Senhora da Conceição do Sabará, a casa barroca de acústica quase perfeita, e com melhores condições arquitetônicas que a de Vila Rica, surgida cinqüenta anos antes.
A acústica perfeita fez com que D. Pedro I não tivesse dúvidas sobre o descontentamento que sua visita causava a grande parte dos cidadãos de Sabará que, em 1831, com idéias liberais, sonhavam alistar-se no Movimento Constitucionalista. Desejando fortalecer sua posição política, que sabia precária, o Imperador, nos caminhos de Minas, chega a Sabará.
Recebido em respeitoso silêncio pelas alas de nobres e plebeus que lotavam a Casa da Ópera no espetáculo de gala em sua homenagem, ele ouve, diante do Camarote Imperial, o esperado e protocolar: "Viva o Imperador D. Pedro I". Silêncio, indecisão, movimentos de leques nos camarotes, de cartolas na platéia. Na acústica quase perfeita, ouve-se a voz do Coronel Pedro Gomes Nogueira, que, ao lado do Padre Mariano de Souza Silvino, liderava os constitucionalistas: "Enquanto for constitucional".
No dia seguinte, o Imperador interrompe a viagem a Minas e volta para a Corte.
Tempos mais tarde, no final do século, o abolicionista Bento Epaminondas promove um espetáculo em benefício da libertação de alguns escravos. Terminada a peça, é provocado por um cidadão inglês, diretor da Companhia de Mineração de Cocais. Bento Epaminondas não fica em silêncio, e isso basta para que escravagistas e abolicionistas iniciem, pelas três galerias de camarotes, uma discussão inflamada, que alguns historiadores afirmam haver chegado às últimas conseqüências.
Também há quem afirme que nada costumava impedir a família sabarense de, unida, assistir aos espetáculos, por mais demorados que fossem. Por que não levar, de casa para o Teatro, crianças, escravas, pijamas, lanches, amas, colchões, cobertores e travesseiros e mamadeiras ? Era o que faziam. E, quando voltavam, o dia clareando, o galo cantando, cruzavam com vizinhos a caminho da missa das cinco, inaugurando o domingo. Tendo tido uma função que passou de colonizadora a politizadora, com o passar do tempo a Casa da Ópera acabou nas mãos da Santa Casa de Sabará, para a qual os proprietários vinham doando, aos poucos, suas cotas.
Ainda no século XIX, ela conheceu a concorrência do cinema, transformando-se no Cine-Teatro Borba Gato, vivendo dias que sua memória gostaria de esquecer.
Talvez tenha esquecido. Nos anos 60, deste século, sob a orientação do arquiteto Luciano A. Péret, o Governo do Estado providenciou sua restauração completa.
Reinaugurada em fevereiro de 1970, com espetáculos de dança, teatro e coral, a casa de espetáculo, antes municipalizada, esteve sob a responsabilidade da Fundação Clóvis Salgado, do Governo do Estado, até 1984. Desde então a antiga Casa da Ópera voltou a pertencer a toda a população de sua cidade, atendendo pelo nome de Teatro Municipal de Sabará.
Tudo estaria perfeito, se não tivesse perdido, em 1982, por culpa de fortes chuvas e da precariedade do Teatro, uma de suas raridades: o pano de boca pintado por Georges Grimm.
Em cores vibrantes, ele reproduzia, em primeiro plano, um dos mais conhecidos e pitorescos recantos da cidade: uma ponte de madeira com paus transversos, constuída pelo engenheiro Henrique Dumont, pai de Alberto Santos Dumont - mais tarde conhecido como o Pai da Aviação.