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Teatro Municipal do Rio de Janeiro
Estilo Eclético
(1904 - 1909) Rio de Janeiro, RJ


uem entra no teatro municipal do Rio de Janeiro talvez não possa imaginar que, para sua restauração - 1987 a 1990 -, foi gasto, só de tapetes o equivalente a uma vez e meia o campo do Maracanã. De veludo, algumas toneladas. Só na cortina do palco, uma tonelada. Quinhentos quilos para a esquerda, outros tantos a direita. E, no reestofamento das poltronas, o equivalente a 1600 cabeças de gado. Os números, além de curiosos, indicam a extensão dos trabalhos realizados pela Fundação Teatro Municipal, antecedendo a comemoração dos oitenta anos do prédio inaugurado em 1909, no dia 14 de julho, homenagem à data nacional da França.

Um grupo de especialistas em restauro e documentação elaborou e coordenou a execução da obra que, patrocinada por empresas particulares e públicas, atingiu todas as áreas internas e externas do edifício. Instalações hidráulicas, elétricas, marquises, pintura, decoração, forração, estofamentos, lustres, espelhos, tudo foi cuidadosamente pesquisado, analisado, recuperado e, sempre que possível, valorizado.

As análises e pesquisas levaram os especialistas às origens do teatro, nascido dos ideais e da insistência do comediógrafo Arthur Azevedo e do empenho do prefeito Francisco Pereira Passos, em cuja gestão, em 1903, foi aberta a concorrência pública para a realização do projeto que, há anos aprovado, transitava, sempre adiado, de uma sala para outra. Dos sete projetos que disputavam a concorrência pública, dois - Isadora e Aquilla - empataram.

Quando a primeira das 1180 estacas de madeira de lei foi fincada, Aquilla, o vencedor, identificava o engenheiro Francisco de Oliveira Passos, sobrinho do prefeito, que contou com a colaboração de Antonio Raffin, Charles Peyreten, Emílio Bien e J. Personne, chefiados por René Barba.

Em sistema de revezamento, duas turmas de operários trabalharam dia e noite, durante o primeiro ano. As fundações ficaram prontas em apenas cinco meses, e a pedra angular foi colocada no canto formado pela Avenida Central, hoje Rio Branco, e o beco Manuel de Carvalho hoje rua do mesmo nome.

Concluída em 54 meses, a construção consumiu 6.779 metros de estacas vindas de Santa Catarina, 6.262.000 quilos de cimento, 16.253 metros cúbicos de areia, 4.794.000 tijolos, 8.669 metros cúbicos de granito, 3.419 metros cúbicos de brita, 2.463.000 litros de cal de pedra, 1.669.000 quilos de aço e 1.545.000 quilos de mármore. O custo total da obra correspondeu, na época, a quase 2 por cento do orçamento da união.

O Teatro Municipal foi inaugurado com um discurso do poeta Olavo Bilac, entregando à cidade do Rio de Janeiro "o seu mais belo edifício, com um esplendor de mármore e bronzes". Além do discurso do poeta, a elite da capital brasileira, o presidente Nilo Peçanha à frente, pôde assistir à apresentação de duas óperas nacionais -"Moema", de Delgado de Carvalho, e "Insônia", de Francisco Braga - e da comédia "Bonança", de Coelho Neto.

Os primeiros tempos do Teatro Municipal marcados por intensa programação internacional, receberam companhias italianas, portuguesas, alemãs, inglesas, latino-americanas e - o ponto alto - francesas.
Durante as temporadas francesas, as senhoras, já naturalmente exigentes, chegavam ao requinte de encomendar um traje para cada noite. Os convites se acompanhavam, invariavelmente de brindes. Uma amostra de perfume francês, um saquinho de pó-de-arroz, um lencinho cuidadosamente dobrado.

Coube à companhia de Réjane, vinda da França, é considerada, na época, a sucessora de Sarah Bernhardt, marcar a presença estrangeira no palco do Teatro Municipal, no dia seguinte ao de sua inauguração.
Alternadamente, foram se apresentando, nas décadas seguintes, as companhias de Louis Jouvet, Raul Roulien, Jean-Louis Barrault, Pierre Brasseur. E também The Old Vic Company, com Vivien Leigh, o Teatro San Carlo de Napoli, John Gielgud e Irene Worth, Vittorio Gassman.

A partir dos anos 40, as mais atuantes companhias nacionais fizeram do Teatro Municipal uma escola, onde tanto aprendiam, quanto ensinavam a representar: Dulcina, Jayme Costa, Procópio Ferreira, Paschoal Carlos Magno, Bibi Ferreira, Henriette Morineau, Maria della Costa, Maria Fernanda, Tônia Celi-Autran, Cacilda Becker. Algumas obras definitivamente consagradas da dramaturgia brasileira -"Auto da Compadecida", "Morte e Vida Severina", "A Falecida" - tiveram a sessão de estréia no Teatro Municipal.

Quanto à dança e a música, sobretudo a ópera, sua história se mescla com a do Teatro Municipal, numa troca de prestígio que beneficiava ora um, ora outro. Se é verdade que artistas talentosos, mas pouco conhecidos, lançaram-se nacional e internacionalmente a partir do palco do Teatro Municipal, também não se pode negar que a presença de nomes como Nijinski, Isadora Duncan e, Anna Pavlova, o Ballet Ópera de Paris, Paderewski, Richard Strauss, Stravinsky, Rubinstein e Maria Callas elevou aos píncaros sua imagem. Além de tudo isso, o Teatro da antiga Avenida Central não abre mão de uma glória: foi o primeiro teatro da América latina, e um dos primeiros do mundo, a apresentar, completo, o "Lago dos Cisnes", em 1959.

Entre as mais de três dezenas de apresentações que se seguiram, a maior parte delas pela corpo de baile do Teatro Municipal, destacam-se as do Ballet de Leningrado, do Ballet da Finlândia e do Ballet Stalinavski.
Ao lado dos dias de glória, o Teatro Municipal, sobretudo a partir da década de 30, passou a ter, muitas vezes, a integridade abalada, abrigando eventos avessos a sua finalidade: formaturas, congressos e, a partir de 1932, bailes e desfiles de carnaval, quando se abusava das características complacentes da data para justificar perdas e danos irreparáveis. Também nessa época o restaurante Assírio, no subsolo, foi transformado em Museu dos Teatros.


Proibidos depois da restauração de 1976 a 1978, os eventos procuraram outros caminhos, o Museu dos Teatros, também, e o restaurante voltou a deslumbrar seus frequentadores.
Vinte e cindo anos após a inauguração, o Teatro Municipal não mais atendia às necessidades da cidade que crescia, a acústica estava deficiente, a ventilação, a refrigeração.


A sala de espetáculos foi transformada, surgiram 466 novos lugares, os pontos cegos desapareceram, uma instalação contra incêndios foi criada, problemas de água e ar resolvidos, 23 telefones instalados. Tudo isso num espaço de tempo - três meses - incompreensível para os recursos da época.


Em 1941, outra reforma, outras aquisições: substituições das baterias elétricas, das instalações de luz, e de dois elevadores, nova mobília nos camarotes do presidente da República e do prefeito (hoje, do governador), novo assoalho para frisas e foyer, novas poltronas.


No entanto, por mais cuidadas que fossem, as reformas, aos poucos, descaracterizavam a feição original do projeto de Oliveira Passos. Além disso, os abusos das autoridades responsáveis e dos frequentadores despreocupados resultaram na necessidade de uma grande restauração.


De 1976 a 1978, o professor Edson Motta dirigiu a restauração artística, e a Wrobel Construtora, a de engenharia civil. Surgiram 14 camarins nobres, camarins coletivos - com elevador - para o corpo de baile, coro, orquestra e figurantes, que passaram a contar com banheiros e guarda-roupas. Quadros de luz automatizados, camarotes do presidente e do governador reformados, fosso da orquestra remodelados, iluminação computadorizada, cena com sistema de iluminação planejado e executado na Bélgica, esquadrias de madeira restauradas, pisos, ferragens, portas, janelas, luminárias idênticas às originais.


No final de tudo, o esperado e o desejado: o uso da sala de espetáculos para quaisquer eventos não teatrais foi proibido. Ainda assim, o passar do tempo, o constante uso da sala de espetáculos e a chegada dos 80 anos exigiram nova reforma. Tapetes, veludos, couros, pintura, decoração, arquitetura, de nada se esqueceu, muito se recuperou.


Se os restauradores descessem além dos alicerces talvez encontrassem restos de uma caravela. Os operários da construção encontraram, dizem. É que o terreno onde o Teatro reina, soberano, sobre o Rio de Janeiro, em outros tempos foi banhado pelo mar.









































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