m 1898, na então pequena cidade de Natal, começam a surgir os alicerces da construção que transformaria não apenas a paisagem da Praça Augusto Severo, mas sobretudo os costumes de seus moradores, habituados à tranquilidade das manhãs ensolaradas e às calmas conversas dos fins de tarde, cadeiras colocadas na calçada.
Em 1898, na então pequena cidade de Natal, nascia o futuro estudioso Luís da Câmara Cascudo que, bem mais tarde, assim definiria a construção iniciada naqueles alicerces: "O Carlos Gomes foi o teatro, fascinante, único, dominador".
O Teatro Carlos Gomes, idealizado no governo do desembargador Joaquim Ferreira Chaves e projetado pelo engenheiro José de Berredo, foi construído sob a direção do major Theodósio Paiva, fato de relativa frequência na época. Inaugurado seis anos mais tarde - 24 de março de 1904 -, a renda obtida propunha amenizar o sofrimento de retirantes esqueléticos e famintos que, expulsos do sertão pela seca, superpovoavam a cidade.
Num cenário representando uma típica cidade do norte do Brasil, a população de Natal assistiu, na estréia cuidadosamente preparada pelo governador Alberto Maranhão e pelo primeiro diretor do Teatro, o professor Joaquim Scipião, à apresentação da Banda do Batalhão de Segurança, além de dramatizações, monólogos, recitações de poemas.
Até 1910, no segundo mandato de Alberto Maranhão, o Teatro Carlos Gomes conservava antiga forma de chalé. Completamente modificado, adquiriu um novo pavimento, portões da grade de ferro importados da fundição Val de Osnes. Em 1912, reinauguração oficial, com a Cia. Gran Zarzuela, de Pablo Lópes. A partir de então, companhias francesas, espanholas e portuguesas não deixavam de incluir o confortável Teatro Carlos Gomes em seus roteiros de viagem. E, em 1936, houve o primeiro recital da cantora lírica Bidu Sayão, em Natal.
As décadas seguintes marcaram a decadência do teatro, que se descaracteriza cada vez mais. Como pertencia à municipalidade, em 1957 o prefeito de Natal, Djalma Maranhão, mudou seu nome para Teatro Alberto Maranhão, em homenagem a seu principal defensor.
Em 1959, nova reforma, tendo reaberto no ano seguinte, no dia 24 de março, passando, então, a funcionar regularmente, sem novas interrupções, até a década de 70, quando foi equipado com um imprescindível sistema de ar-condicionado. Mais tarde - julho de 1988-, a Fundação José Augusto, encarregada pelo governo do estado da administração do teatro de tomou a frente de uma grande reforma. Camarins, jardins, salão nobre, palco, platéia, nada foi esquecido. Sob a supervisão técnica da Coordenadoria do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado, com recursos da Fundação Banco do Brasil, o teatro Alberto Maranhão foi pacientemente restaurado, a partir de estudos e pesquisas em que especialistas não mediram esforços para buscar, sempre que possível, suas primeiras feições.
Uma das primeiras feições humanas do Teatro Alberto Maranhão ainda não pode ser esquecida. Havia um operário que se diferenciava dos demais, por permitir que o filho, mal sabendo andar, o acompanhasse, vez ou outra, às obras. O filho aprendeu a andar, arranjou emprego e nunca trabalhou fora do Teatro, sua primeira casa, segunda, terceira.
Hoje, o mais antigo funcionário do teatro Alberto Maranhão, José Nicanor, que a cidade natal conhece como Coquinho, mal conseguindo andar, cuida de sua casa dia e noite. Contando, lúcido, histórias que viveu e não quer esquecer. Substituindo, solícito, o vigia que se atrasou, ou errou o caminho. Juntando, numa única realidade, a fantasia do teatro e a da vida.
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